souvenirs Mundo Indefinido

Tinha planeado um artigo completamente diferente para hoje, mas aproveitei a tarde de ontem para ir às compras aqui em Victoria e o que vivi pelas lojas de lembranças fez-me alterar os planos. Este texto é bastante diferente daquilo que costumo publicar por aqui, mas senti que precisava de o escrever. Vai muito de encontro àquilo em que acredito e ao que desejo para o mundo das viagens.

souvenir 01 frente Mundo Indefinido
souvenir 01 verso Mundo Indefinido

Eu tinha uma missão bem definida: queria comprar umas lembranças do Canadá para decorar a minha casa - se há coisa que gosto são ímanes bonitos para adornar o frigorífico - e para oferecer a amigos e familiares. Só volto a Portugal no final de Junho, mas se for comprando aos poucos parece que não pesa tanto na carteira... Então qual foi o problema?

Já tinha comprado algumas coisas há cerca de um mês e quando cheguei a casa reparei que a maior parte delas dizia made in China ou made in PRC. A alternativa era made in Indonesia. Ontem tentei comprar algo que dissesse made in Canada e foi uma tarefa hercúlea. Os objectos seguiam um de três padrões, sendo: 1) projectados no Canadá mas feitos na China; 2) fabricados na China mas estampados no Canadá; ou 3) construídos na Indonésia com base em desenhos canadianos.

Lá consegui encontrar um ou outro item cujo percurso, desde a ideia até ao produto final, tivesse sempre ficado no Canadá. Mas foi preciso percorrer 6 lojas diferentes, e verificar as letras pequeninas de cada objecto que queria comprar. Eu estou no Canadá, posso comprar coisas feitas localmente, se faz favor?

souvenir 02 frente Mundo Indefinido
souvenir 02 verso Mundo Indefinido

Há aqui duas coisas importantes a considerar. A primeira é que, se estamos num determinado país, faz todo o sentido comprarmos objectos produzidos nesse mesmo país. É um incentivo ao comércio local, ajuda na dinamização da economia da região e na criação de empregos. Para além de que, ao não haver necessidade de transportar bens de um lado para o outro, o ambiente também é poupado.

A segunda tem que ver com o facto de os objectos estarem a ser fabricados na China, ou em países com condições de trabalho fabril similares. As fábricas chinesas já fizeram correr muita tinta (aqui, aqui e aqui, por exemplo), sempre pelos mesmos motivos: baixos salários que mal dão para viver, jornadas diárias de 12 horas de trabalho, horas extra que não são pagas, dormitórios superlotados, más condições de segurança.

Mas isto não é só na China. Índia, Bangladesh, Cambodja, Myanmar, Laos, Vietname e Indonésia estão na mesma situação. Como a realidade chinesa começa (felizmente) a mudar um pouco, as fábricas estão (infelizmente) a mudar-se para outros países onde a situação precária se mantém. Não digo para se tomar uma posição radical e deixarmos de comprar coisas fabricadas nestes países, mas a tomada de consciência é um primeiro passo importante. Vamos tentar perceber quem fez as lembranças e em que condições é que essas pessoas trabalham?

souvenir 03 frente Mundo Indefinido
souvenir 03 verso Mundo Indefinido

Não me vou armar em moralista: eu compro lembranças em cada cidade por onde passo, e muitas vezes nem reparo nas etiquetas. Ou não reparava. Acho que a partir de agora vou ter isso em atenção em cada compra que fizer. Isto da consciência é uma coisa tramada... Quando se começa a ter, já não se consegue desligar. 

Um pouco dentro desta linha, as Nações Unidas declararam 2017 com o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento. Segundo Taleb Rifai, o secretário-geral da Organização Mundial de Turismo das Nações Unidas:

 

É uma oportunidade única para fazer avançar a contribuição do sector do turismo para os três pilares da sustentabilidade – económica, social e ambiental.

Enfim, fica o apelo. Lê as letras pequenas, questiona, informa-te. Eu irei fazer o mesmo. Entretanto, prometo que voltarei às crónicas e às dicas de viagem na próxima semana.

6 comentários

  1. Aplausos!! Este post é só brilhante e uma bela chapada in your face. E se eu te disser que todas as vezes que vou comprar algo vejo onde foi fabricado? É taoooooo difícil encontrar alguma coisa made in portugal ou made qualquer coisa que não seja china e o resto dos países que inúmeras. Mas tal como tu que foste à sexta loja e encontraste, nós também conseguimos encontrar.

    Mas é uma hipocrisia do caraças um souvenir dum país fabricado noutro. Sabes qual é o raiz do problema Catarina? É que há consumidores, as pessoas efectivamente compram, compactuando com este mercado! Souvenirs feitos do outro lado do mundo para serem enviados para o país do souvenir whattttt? Pegada ecológica aqui? Badddd.

    Traz mais posts destes que gosto muito! Hehe

    1. Oh, obrigada, fico muito contente que tenhas gostado 😀 É mesmo difícil, mas é possível! Só temos de ter um bocado mais de trabalho e paciência na procura, mas acho que vale a pena. Sim, muita gente compra e nem sequer liga nenhuma para estas coisas (também eu o fiz), por isso é que disse que a tomada de consciência é um primeiro passo. Agora, toca a ler as letras pequenas!

      Talvez traga mais artigos deste género 😉

  2. Adorei o post. Comprar coisas locais é um desafio imenso, por vezes quase impossível. Eu não costumo comprar souvenirs. Os souvenirs que tenho fui eu que os arranjei – costumo trazer areias dos sítios onde vou e já tenho uma pequena colecção, trago sempre uns restos de notas e moedas e em Cuba também comprei jornais para trazer como recordação. Só na viagem à América do Sul é que não pude deixar a Bolívia sem uma daquelas mantas carregadas de cores tão utilizadas por aqueles lados – e não tem qualquer etiqueta, pelo que assumo que é produzido por lá. Ah, e em Cusco também comprei uma daquelas camisolas de lã quentinhas, não só porque as adorava como porque estava mesmo frio e precisava de mais agasalhos! Também sem etiqueta, pelo que espero que tenham sido produzidas lá (mas sem certezas). De resto, desisti completamente, em parte porque vou sempre com orçamento limitado para as viagens, mas essencialmente porque sinto que os ditos souvenirs são sempre artificiais. Raras vezes são produzidos no próprio local/região e parece-me ridículo estar a trazer algo que não é real. Cheguei a escrever uma vez sobre isso mas como o post não me parecia bem conseguido, acabei por apagar uns meses depois de o publicar. Esta tua abordagem foi excelente!

    1. Ainda bem que gostaste, mesmo! 😀 Pois, o meu problema são os ímanes… Adoro ter o frigorífico cheio deles, mas quase nunca são fabricados naquele país, é uma pena. Faço o mesmo com as moedas e notas e também tenho uma pequena colecção de areia! Mas se pensarmos bem, não é assim tão boa ideia andarmos a levar coisas de um lado para o outro… Se toda a gente fizesse isso, as praias deixavam de ter areia, por exemplo 😛 Sim, acredito que essa manta e a camisola tenham sido produzidas no sítio onde as compraste.

  3. Olá Catarina!
    Descobri o teu blog depois de pesquisar sobre como obter o visto para a Rússia (e todo o trabalho que implica…), entretanto tenho lido alguns posts sobre cidades que já visitei e outras que quero visitar. Tropecei neste post e sem dúvida esta história dos souvenirs é algo que ninguém pensa mas que é de facto uma praga de chinesices e outras “ices”… Nunca tinha pensado nisso até ter visitado Marrocos e mais concretamente os souks de Marraquexe que foram uma desilusão total com um infindável número de objectos Made in China, quando eu esperava aquela autenticidade de Marrocos da minha imaginação. Conclusão, acabei por trazer praticamente bens alimentícios que achei curiosos (essencialmente produtos que não existem cá e na verdade nem assim eram feitos em Marrocos, alguns vinham da Arábia Saudita e afins) e o óleo de argão que sinceramente não sei se está misturado com qualquer outro tipo de óleo vegetal ou não…

    1. Olá Íris! Muito bem-vinda a este meu cantinho! Fico contente que o tenhas encontrado e que tenhas decido ficar para ler mais algumas coisas 🙂
      Pois é, infelizmente é bastante comum encontrarem-se coisas feitas noutros locais que não aquele que estamos a visitar. É triste, não é? Mas acredito que nós, enquanto consumidores, temos o dever de estar atentos, questionar. Tenho pena que tenhas tido essa experiência em Marraquexe… Ainda não fui lá, mas confesso que na minha ideia (sem dúvida um pouco romantizada) de Marrocos, também esperava mais autenticidade. Em relação aos produtos alimentícios, é engraçado que em alguns locais há chás que vêm em caixinhas muito bonitas do local onde estamos, só que esse país não é produtor de chá!

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