China, Pequim

Guia prático sobre as secções da Muralha da China

Grande Muralha da China Mundo Indefinido

Grande Muralha da China. É impressionante como 4 palavras apenas conseguem fazer a nossa mente voar. Sempre a imaginei como algo único, de uma magnitude impressionante, construída por capricho de um qualquer governante. Até me ter aprofundado mais sobre o assunto, e ter descoberto que o que hoje chamamos de Grande Muralha da China, não foi inicialmente construída como uma muralha única e contínua!

O que vemos é, no fundo, um conjunto de fortificações que datam de alturas bem distintas. Feitas em terra, pedra, tijolo e madeira (entre tantos outros materiais), as muralhas independentes foram sendo construídas ao longo da fronteira norte do país.

As diferentes muralhas tinham vários propósitos. Um deles, e talvez o mais evidente, era oferecer protecção aos impérios chineses contra invasões externas.  Uma outra finalidade era a de controlo fronteiriço, cobrando direitos e taxas sobre as mercadorias transportadas ao longo da mítica Rota da Seda. Por fim, serviu também como um local para onde enviar criminoso e marginais, como forma de os fazer trabalhar.

Uma das muralhas mais antigas terá sido construída entre 220 e 206 a.C. por Qin Shi Huang (秦始皇), aquele que foi o primeiro imperador da China unificada. Sim, o mesmo que mandou construir os magníficos Guerreiros de Terracota, que se encontram em Xi'an. Ao contrário dos Guerreiros, pouco dessa muralha sobreviveu até hoje.

A maior parte das secções existentes é da dinastia Ming (Míng Cháo, 明朝) (1368-1644), altura em que a Grande Muralha da China adquiriu o seu aspecto actual. Ao longo dos anos, partes destas muralhas foram sendo reconstruídas, e algumas encontram-se em muito bom estado de conservação.

Separada ou contínua, a verdade é que a Grande Muralhada da China é uma das maiores e mais impressionantes obras construídas pelo Homem. Vamos ver 10 das suas secções.

Bādálǐng (八达岭)

Bādálǐng é uma excelente representação de como era a Muralha da dinastia Ming. Foi construída em 1505, durante o reinado do 10º imperador, Hóngzhì (弘治).

Com 7,6 quilómetros, esta é a secção que está aberta ao público há mais tempo, desde 1957. Por ser de muito fácil acesso, e pelo facto de a caminhada ser adequada para todo o tipo de pessoas, também é a que tem mais visitantes.

As infraestruturas são muito boas. Há casas-de-banho, diversos locais para comer, um hotel, e alguns acessos para cadeiras de rodas. Há até um cinema ao pé da entrada!

Muitas daquelas fotografias que vemos por aí, com a Muralha repleta de pessoas, foram tiradas aqui. Se queres uma visita mais tranquila, evita Bādálǐng.

Jūyōngguān (居庸关)

Jūyōngguān também foi construída durante a dinastia Ming, mas no reinado do seu 1º imperador, Zhū Yuánzhāng (朱元璋). Esta é a secção que está mais próxima de Pequim.

Por se encontrar próxima da cidade, teve grande importância na sua defesa. Fortes batalhas foram aqui travadas, contra jurchens, mongóis, e até japoneses. Genghis Khan (Chinggis Khaan, Чингис Хаан), intrépido imperador mongol, acabou por vencer Jūyōngguān, liderando o seu exército até Pequim.

Esta secção foi restaurada em 1990 e encontra-se em excelente estado. Tem até algumas partes que são acessíveis para cadeiras de rodas.

Nas outras zonas, a subida a algumas torres pode ser difícil e cansativa. Uma das escadarias tem cerca de 1500 degraus, todos extremamente irregulares. Variam de apenas 2 a uns incríveis 60 centímetros de altura!

Huánghuāchéng (黄花城)

Huánghuāchéng foi construída entre 1404 e 1591, durante a dinastia Ming. O seu principal objectivo era oferecer protecção ao mausoléu que o imperador Yongle (永樂) tinha mandado construir nas redondezas.

O mausoléu pode hoje ser visitado, tendo o nome de Túmulos Ming. Fazem parte dos Túmulos Imperiais das Dinastias Ming e Qing, Património Mundial da UNESCO.

Esta secção é perfeita para quem quer ver a Muralha em diferentes estados de conservação. Existe uma zona original completamente selvagem, uma área restaurada e 3 locais submersos! Como há um lago, é ainda possível ver a Muralha dum barco.

Jiànkòu (箭扣)

Não há certezas de quanto é que Jiànkòu foi construída. Pensa-se que terá sido logo no primeiro ano da dinastia Ming, em 1368. Foi alegadamente restaurada por volta de 1644, mas não viu mais nenhuma intervenção desde essa altura.

Não está aberta ao público e encontra-se num estado bastante selvagem. Muitos tijolos estão a cair, o chão é extremamente irregular, e há vegetação um pouco por todo o lado. Foi isto que me atraiu. Fazer a caminhada de Jiànkòu até Mùtiányù foi das melhores experiências que alguma vez terei.

Não é propriamente legal percorrer partes não restauradas na Grande Muralha da China... Se o decidires fazer, vai por tua própria conta e risco. Eu fi-lo, e tornaria a fazê-lo, mas não o aconselho a todas as pessoas. Não é uma caminhada fácil, e pode até ser bastante perigoso se não se tiver cuidado.

Mùtiányù (慕田峪)

Mùtiányù é das secções mais antigas. Foi originalmente construída durante a dinastia Qi do Norte (Běi Qí, 北齊), há mais de 1400 anos! Durante a dinastia Ming, foi totalmente reconstruída e reforçada.

Cerca de 2,5 quilómetros desta secção foram belissimamente restaurados em 1986. O que vemos é uma réplica das fortificações de 1568, da dinastia Ming.

Apesar desta secção ser muito popular entre viajantes estrangeiros, não tem tanta gente como Bādálǐng. O acesso é fácil e é uma secção de extraordinária beleza.

Gǔběikǒu  (古北口)

Tal como Mùtiányù, Gǔběikǒu começou a ser construída durante a dinastia Qi do Norte, em 556. Os materiais utilizados foram terra e pedra, que não sobreviveram bem até aos nossos dias. Na dinastia Ming, a Muralha foi estendida e melhorada, com mais torres e portões de passagem. Desde 1567 que não houve renovações.

Esta secção tem uma importância histórica muito grande. Foi testemunha de mais de 130 batalhas aos longos dos anos, em particular contra mongóis.

Ao contrário de Jiànkòu, encontra-se bem preservada e a caminhada não é tão difícil. No entanto, e tal como Jiànkòu, não está aberta ao público. Novamente refiro que não é legal percorrer partes não restauradas na Grande Muralha da China. Se o decidires fazer, vai por tua própria conta e risco.

Jīnshānlǐng  (金山岭)

Jīnshānlǐng foi construída durante a dinastia Ming, entre 1368 e 1389. Mais tarde, na segunda metade do século XVI, foi totalmente restaurada. Hoje, podemos encontrar poemas nas paredes, que aqui se mantiveram desde essa altura.

Uma das características mais interessantes desta secção são as suas torres de vigia. Cada uma delas é única, com diferentes formatos. Há torres altas, baixas, rectangulares ou quadradas. Nenhuma é igual à outra.

Esta secção tem duas zonas, uma bem preservada e outra num estado um pouco selvagem. A primeira está aberta ao público, enquanto que a segunda não está. O extremo oeste desta secção é mesmo interdito, uma vez que actualmente abriga uma área militar restrita.

Sīmǎtái (司马台)

Sīmǎtái foi construída durante a dinastia de Qi do Norte, e posteriormente restaurada e ampliada durante os primeiros anos da dinastia Ming. Teve uma nova intervenção por volta de 1569. Desde essa altura que não houve renovações.

Esta secção tem a particularidade de que pode ser visitada à noite. Apesar de não ser a única secção iluminada (Bādálǐng também o é), é a que tem uma iluminação mais subtil e, segundo alguns, mais sofisticada.

Huángyáguān (黄崖关)

Huángyáguān foi construída durante a dinastia Qi do Norte, em 556. Durante a dinastia Ming, em 1569, foi totalmente reconstruída.

Esta secção ficou bastante danificada devido às inúmeras batalhas que aqui ocorreram. Em 1984, cerca de 3 quilómetros foram totalmente renovados, incluído 20 torres de vigia e um forte.

Um facto curioso é que todos os anos, a 19 de Maio, ocorre uma maratona que passa pela Muralha. Cerca de um quarto da corrida é feito por Huángyáguān, onde os participantes têm de subir perto de 3700 degraus. Não é uma corrida fácil, mas sem dúvida que é única!

Shānhǎiguān (山海关)

Shānhǎiguān foi construída em 1381, durante a dinastia Ming. O seu objectivo principal era a defesa das fronteiras, e teve uma grande importância histórica. Quando os manchus venceram a Muralha em Shānhǎiguān, a dinastia Ming caiu. Esta vitória marcou o início da dinastia Qing.

Grande parte das paredes e fortificações estão bem preservadas, mantendo o seu aspecto original. Aqui, temos algo que não existe em mais nenhuma outra secção: o oceano. A Muralha chega até ao oceano Pacífico, no mar de Bohai (Bó Hăi, 渤海).

Sabias que a Grande Muralha da China não era única?
Já visitaste algumas destas secções? Qual delas gostarias de conhecer?