Mongólia

Pelo interior da Mongólia: dia 3 no país dos nómadas

Mongólia Mundo Indefinido

Para visitar o interior da Mongólia, decidimos recorrer a uma agência (explico o porquê no primeiro artigo sobre esta viagem). Como quase todas as opções de alojamento em Ulaanbaatar, o Danista Nomads Tour Hostel (onde ficámos alojados) tem uma vasta gama de visitas organizadas pela Mongólia. Tendo em conta o tempo que tínhamos disponível, escolhemos o circuito 4 days full of adventure. Dividi o relato destes dias maravilhosos em vários artigos:

Tudo a postos para irmos descobrir a Mongólia?


O prazer de andar a cavalo na estepe mongol

Quando acordámos, o sol ainda não tinha força suficiente, e um vento cortante beijava-nos a face. Nos verões mongóis, as manhãs e as noites são geladas, o que contrasta com o calor que se faz sentir durante o dia. O frio fazia-nos querer voltar para o quentinho da cama, mas a vontade de começar a explorar a estepe mongol era maior. Ainda por cima, íamos fazê-lo a cavalo!

Eu tinha andado uma vez, lá em 2013, quando estive a ensinar num campo de férias na Rússia. Tinha gostava tanto da experiência que mal podia esperar para a repetir. A morrer de frio, e com o casaco o mais apertado possível, subi para o cavalo. Depois de nos habituarmos um ao outro, ele fazia tudo o que eu mandava: virava quando eu queria, parava quando eu o desejava, e alternava entre trote e galope à minha ordem.

Andámos durante cerca de uma hora, entre montanhas e planícies. Há uma sensação enorme de liberdade e paz ao andar a cavalo no meio de tamanha beleza. De um lado, tínhamos pequenas serras cobertas de verde. Do outro, estepes a perder de vista. Chegámos até a atravessar um pequeno riacho!

No final, eu queria começar tudo novamente, mas tínhamos de continuar viagem. Agradecemos à família mongol que nos acolheu e entrámos na carrinha. Mal sabíamos o que iria acontecer antes de chegarmos ao destino seguinte...

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Por "estradas" mongóis no meio da chuva

O sol descoberto da manhã não fazia prever a chuva que iríamos apanhar pelo caminho. Mas a verdade é que, de um momento para o outro, começou a chover imenso. O nosso condutor, confiante nas suas capacidades, continuou como se nada fosse, a grande velocidade. A carrinha balançava, e nós saltámos do assento a cada meio metro, quase chegando a bater com a cabeça no tecto. Cintos de segurança? Não existem.

As estradas continuavam a ser apenas feitas de terra e erva. Junto com a água da chuva, rapidamente se transformaram em lama. Lama escorregadia e um condutor a uma velocidade alucinante. Poças de água começavam-se a formar à nossa volta, e ouvíamos as rodas da carrinha a entrar e sair de buracos: splash, splash, splash. A dada altura, guinámos para a esquerda, guinámos para a direita, e sentimos que a carrinha não estava a seguir as ordens do condutor. Estávamos a aquaplanar! 

Mantendo o sangue-frio, e apenas reduzindo ligeiramente a velocidade, o condutor continuou em frente. Passado pouco tempo, conseguiu ganhar novamente o controlo da carrinha. Nos quilómetros seguintes parecia que a chuva não tinha andado por ali. O céu apresentava-se azul e não havia lama. Podíamos relaxar, o pior tinha passado.

Carrinha Mongólia Mundo Indefinido

Mosteiro Tövkhön (UNESCO)

Já era hora de almoço quando chegámos ao vale perto do Mosteiro Tövkhön. Ficámos sentados a comer fora da carrinha, tentando aproveitar a sua pequena sombra. Alimentámo-nos bem, íamos precisar de forças para o que vinha a seguir.

O Mosteiro Tövkhön encontra-se a 2600 metros acima do nível do mar, e a única forma de se lá chegar é a pé ou a cavalo. Apesar de não ser a pessoa mais atlética do mundo, adoro caminhadas, e sou capaz de calcorrear quilómetros. Mas percorrer terrenos planos não é o mesmo que andar em terrenos inclinados, com pedras e ramos de árvores a atrapalhar.

A tosse que me acompanhava desde Moscovo (estava comigo há 2 semanas!) ainda não tinha ido embora, o que não facilitou a subida. Quando fazia um pouco mais de esforço, a tosse aparecia, deixando-me ainda mais cansada. Era um círculo vicioso, e estive quase para desistir. Ainda bem que não o fiz.

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O mosteiro faz parte da Paisagem Cultural do Vale do Orkhon, considerada Património Mundial da UNESCO desde 2004. Falei um pouco mais sobre essa paisagem no segundo dia da viagem pela Mongólia. Foi estabelecido em 1648 por Undur Gengeen Zanabazar, o primeiro Bogd Javzundamba (líder religioso).

Este chefe espiritual do budismo tibetano também era escultor, pintor e músico, e usava o mosteiro como retiro pessoal. Foi lá que criou muitos dos seus trabalhos mais famosos.

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Apesar de se localizar no topo da montanha Shireet-Ulaan, que não é de fácil acesso, o mosteiro foi destruído em 1688. Restaurado em 1773, voltou a sofrer graves danos durante o regime comunista. Há cerca de 20 anos, o espaço foi novamente restaurado. Hoje, podemos conhecer os principais edifícios, assim como a gruta onde Undur Gengeen Zanabazar meditava.

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Perdidos nas margens do lago Ögii

O lago Ögii, localizado no centro da Mongólia, é um dos maiores do país. Íamos passar a noite num acampamento nómada junto ao lago, e admirar toda a beleza natural que por ali se encontra. Saímos do Monteiro Tövkhön um pouco depois do planeado, mas esperávamos chegar ao Ögii antes de anoitecer. Só que tal não aconteceu.

Quando começou a escurecer, a única luz que existia era a dos faróis da nossa carrinha russa. Sem nenhum auxiliar visual, como uma montanha ou uma planície, o nosso condutor - extremamente experiente - perdeu-se. Se já antes estava convencida, nesta altura tornou-se incontestável: era quase impossível termos percorrido a Mongólia sozinhos.

O lago em si não foi muito difícil de encontrar, mas o acampamento fazia-se rogado. Andámos para trás e para a frente na margem do Ögii, sempre aos solavancos, e em grande velocidade. Quando finalmente encontrámos o acampamento, já era noite.

Como nos outros dias, Sarou preparou-nos o jantar, mas o apetite não era grande. As voltas da carrinha tinham deixado grande parte do grupo com alguma indisposição. Desta vez, eu não tinha vontade de adormecer, não queria que o tempo passasse mais depressa. O dia seguinte ditava o final da nossa aventura pelo interior da Mongólia, e esta era a última noite em que íamos dormir num ger.


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